domingo, 13 de março de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES (6) - BRUXAS

FACAS. As bruxas, tal como os políticos e demais cozinheiros, utilizam estes instrumentos, embora dos três mencionados, só os políticos é que as arrumam nas costas dos parceiros. No entanto, as bruxas não consideram a utilização de facas de ferro, uma vez que estas são uma boa protecção contra elas e os restantes espíritos malignos. Por certo, estarão mais interessadas nas facas de prata e ouro, disputando estes instrumentos culinários com o ministério dos Negócios Estrangeiros, à compita nos melhores ourives do ramo.
Em certos países do norte da Europa, parece que ainda há o costume de colocarem uma faca debaixo da almofada da cama para afugentar o mal e o Diabo.
Cruzar duas facas é prenúncio de azar ou de crime
FADO. O Fado que vai ser aqui exposto nada tem a ver com aquele que sai das gargantas da Mariza, do Camané, da Carminho e da Gisela João ou do meu vizinho Malaquias quando anda com os copos. Trata-se, isso sim, do fado como destino, aquilo que tem de acontecer, de quem, logo à nascença, fica talhado para bruxa ou bruxo.
A criança que nascer com uma cruz no céu da boca ou que chorar três vezes seguidas no ventre materno está predestinada a ser bruxa ou bruxo, consoante o sexo. Há casos raríssimos, em que estes sinais proporcionaram um presidente da república, um notário e um carteirista, mas também pode ter sido mal interpretada a cruz na boca e o choro no ventre.
Com ou sem cruz, seguirá este destino a menina que nascer da união entre um compadre e uma comadre.
Sem os sinais anteriores, será fadada a filha de um só casal, cujo destino poderá ser alterado por uma avisada pessoa que tiver o cuidado, logo que nasça o bébé, de lhe picar o dedo mindinho. Nestes casos, a maior parte das maternidades já presta estes serviços sem o saber, ao picar o recém-nascido para exame de bilirrubina, de glicose, do grupo sanguíneo ABO e RH, testes de hipotireoidismo e doença dos pezinhos.
Há quem assegure que o estigma deste fado só acontecerá à sétima filha (segundo as estatísticas da natalidade, caso raríssimo), mas mesmo este poderá ser evitado desde que a mais velha seja a madrinha da mais nova.
FEITICEIRAS. Há quem leve este termo como sinónimo de bruxas, mas não é bem assim. Feiticeira é aquela que faz feitiços e, por conseguinte, magia. Para ser mais preciso, terei de dizer que a feitiçaria faz parte da bruxaria, mas bruxaria nem sempre faz parte da feitiçaria. A bruxa já nasce bruxa, é um dom natural, enquanto a feiticeira tem de aprender a arte, mesmo que frequente um curso no instituto adequado, numa escola profissional com esse curso aprovado ou numa universidade sénior. Ambas as “artes” trabalham com magia, pelo que se podem dizer magas.
FERRADURAS. Importantes amuletos, afastam dos malefícios das bruxas quando colocados atrás da porta da casa. Não será de utilizar uma ferradura qualquer, pois o sortilégio só funcionará se o adereço respeitar à pata esquerda traseira de uma mula, de um burro ou de um cavalo, mas com as pontas viradas para cima. Também é de salvaguardar um pormenor: a ferradura tem de ser usada, evidentemente, por um dos quadrúpedes apontados.
Eu mencionei quadrúpedes e não bípedes, pois estes últimos não usam ferraduras, embora alguns escoicinhem tanto como mulas bravas.
Na Idade Média acreditava-se que as bruxas temiam os cavalos. Andavam de burro e, mesmo nestes solípedes, sentavam-se neles ao contrário. Nesse tempo, era costume pregar ferraduras nos caixões das mulheres acusadas de bruxaria para que não ressuscitassem. Actualmente, como já se fabricam poucas ferraduras, substituíram nesses sarcófagos de madeira as ferraduras por arranjos florais de urzes, íris, cravos e margaridas, inseridos em blocos de espuma.
FIGAS. O termo não significa, de facto, o feminino de figo no seu plural. Para se ter uma ideia deste amuleto, é representado por uma mão fechada com o dedo polegar metido entre o indicador e o médio. Entre outras virtudes medicinais, o gesto faz-se para esconjurar bruxedos. O talismã, suspenso de uma corrente de pulso ou pescoço, quer em prata quer em ouro, mesmo em pechisbeque, gere a segurança do portador contra maus-olhados e ares maléficos. Não livra, por exemplo, de uma multa de trânsito, do calote de dinheiro emprestado a canzeiros, ou de outras inesperadas sequelas da nossa imprevidência.
Uma figa curiosa é o chamado signo salomonis, em forma de dois triângulos entrelaçados, formando uma cruz. Este símbolo era desenhado nas barras das camas e os lavradores não o dispensavam no madeiro da canga dos bois.
FILTROS. Não filtram água nem vinho e também não são eficazes para gasolina, ar e óleo dos motores de combustão. São afrodisíacos feitos com ervas ou outros elementos naturais para despertar o desejo sexual e o amor. Por isso, também são ditos e reditos "poções de amor", muito embora os filtros, ao contrário das poções, não necessitem de caldeirão, cozedura e água a ferver.
FOICES. Para além de símbolo eterno do partido comunista espalhado pelo mundo (ou o que resta dele), ou ainda artefacto de Panoramix, o venerável druida da aldeia de Astérix, as bruxas não utilizam este instrumento nem faz parte da sua iconografia. Se tanto, servem-se da foice para cortar ervas e outros ramos que lhes servem de condimento para as poções.
Com a treta do Halloween, a foice ganhou popularidade como foice da morte, tendo-se mesmo feito uma imitação tosca do símbolo do PC com a espada da morte cruzada com a foice do Dia das Bruxas, ou seja, para este símbolo daquele dia, o martelo foi-se.

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